Técnicos de enfermagem são presos por mortes em UTI do DF
- Allyson Xavier
- 19 de jan.
- 4 min de leitura
Atualizado: 20 de jan.
Investigação da Polícia Civil aponta aplicação de medicamentos irregulares e uso de desinfetante em pacientes internados em estado grave em hospital particular de Taguatinga

Crimes de extrema gravidade cometidos por três técnicos de enfermagem em um hospital particular do Distrito Federal vieram à tona após investigação da Polícia Civil do Distrito Federal. As vítimas estavam internadas em leitos da Unidade de Terapia Intensiva e sofreram piora súbita do quadro clínico, seguida de paradas cardíacas praticamente imediatas.
De acordo com a Coordenação de Homicídios e Proteção à Pessoa, um dos suspeitos aplicava substâncias diretamente na veia dos pacientes em doses elevadas, prática totalmente contraindicado. Em um dos casos, ao não obter o efeito desejado, o técnico chegou a injetar mais de dez doses de desinfetante, provocando a morte da vítima.
Segundo o delegado Wisllei Salomão, coordenador da CHPP, os elementos reunidos ao longo da investigação demonstram intencionalidade clara nos crimes.
“Temos vídeos que demonstram as ações dos envolvidos e a análise detalhada dos prontuários médicos. Há indícios consistentes de que o técnico se passou por médico, acessou o sistema do hospital, realizou prescrições e preparou substâncias que foram aplicadas nas vítimas”, afirmou.
As investigações apontam que o suspeito acessava o sistema interno do hospital, realizava prescrições irregulares, retirava os produtos na farmácia e os escondia no jaleco antes de aplicá-los nos pacientes. Após provocar as paradas cardíacas, ele ainda realizava manobras de massagem cardíaca, numa tentativa de simular reanimação e dissimular os crimes diante da equipe médica.
Dinâmica dos crimes e participação de outras técnicas
Além do principal suspeito, duas técnicas de enfermagem também foram presas. Embora não tenham aplicado diretamente as substâncias, a Polícia Civil aponta que elas presenciaram os atos, vigiaram a entrada do setor e não denunciaram as irregularidades ao hospital nem às autoridades.
Uma das profissionais não atuava no mesmo plantão, mas mantinha relação próxima com o técnico. A outra era recém-contratada e estava em treinamento sob sua supervisão. Imagens das câmeras de segurança mostram que ambas observavam a movimentação no corredor para evitar a entrada de terceiros no momento das aplicações.
O uso de desinfetante ocorreu quando o suspeito já não tinha mais acesso a medicamentos. O produto era retirado do próprio leito e aplicado diretamente na veia da paciente, procedimento fatal. A vítima, uma professora aposentada de 75 anos, morreu em 17 de novembro.
Quem são as vítimas

Até o momento, três mortes são tratadas como homicídios suspeitos:
• uma professora aposentada de 75 anos, moradora de Taguatinga
• um servidor público de 63 anos, residente no Riacho Fundo I
• um servidor público de 33 anos, morador de Brazlândia
As famílias acreditavam inicialmente que os óbitos tinham ocorrido por causas naturais. A suspeita de crime só foi confirmada após a análise das imagens da UTI e a investigação interna conduzida pelo hospital.
Possibilidade de novas vítimas
A Polícia Civil não descarta que outros pacientes possam ter sido vítimas, tanto no mesmo hospital quanto em outras instituições onde o técnico trabalhou anteriormente, inclusive unidades públicas. Um levantamento será realizado para identificar óbitos com características semelhantes.
O principal suspeito, que havia sido demitido do hospital e trabalhava em uma UTI neonatal de outra instituição particular, confessou os crimes após ser confrontado com as imagens.
Confira a nota do hospital na íntegra:
“O Hospital Anchieta S.A., referência em cuidados de saúde em Brasília/DF há 30 anos, vem a público esclarecer as providências adotadas diante de fatos graves envolvendo ex-funcionários da instituição.
Ao identificar circunstâncias atípicas relacionadas a três óbitos ocorridos em sua Unidade de Terapia Intensiva, o Hospital instaurou, por iniciativa própria, em cumprimento ao seu dever civil, ético e ao seu compromisso com a transparência, comitê interno de análise e conduziu investigação célere e rigorosa, que em menos de vinte dias resultou na identificação de evidências envolvendo ex-técnicos de enfermagem, as quais foram formalmente encaminhadas às autoridades competentes.
Com base nessas evidências, fruto da investigação interna realizada pela instituição, o próprio Hospital requereu a instauração de inquérito policial, bem como a adoção das medidas cautelares cabíveis, inclusive a prisão cautelar dos envolvidos os quais já haviam sido desligados da Instituição, prisões as quais foram cumpridas pelas autoridades nos dias 12 e 15 de janeiro de 2026.
Pautado pela transparência de seus processos e pela confiança nos protocolos internos que norteiam sua atuação, o Hospital entrou em contato com as famílias envolvidas, prestando todos os esclarecimentos necessários de forma responsável e acolhedora. Reitera, ainda, que o caso tramita em segredo de justiça, o que impossibilita a divulgação de informações adicionais bem como a identificação das partes envolvidas.
O hospital entende que o segredo de justiça é imprescindível à preservação da apuração, à proteção das partes envolvidas e ao regular exercício das atribuições das autoridades competentes, o qual deve ser estritamente observado de acordo com os limites impostos pela decisão judicial.
O Hospital, enquanto também vítima da ação destes ex-funcionários, solidariza-se com os familiares das vítimas, e informa que está colaborando de forma irrestrita e incondicional com as autoridades públicas, reafirmando seu compromisso permanente com a segurança dos pacientes, com a verdade e a Justiça.”
_______
Os técnicos de enfermagem foram presos nos dias 12 e 15 de janeiro de 2026. Eles podem responder por homicídio qualificado, crime cuja pena varia de 12 a 30 anos de prisão. As duas técnicas investigadas por negligência podem responder por coautoria, caso fique comprovada participação indireta ou omissão relevante. As investigações seguem em andamento, e a polícia afirma que ainda não há uma motivação definida para os crimes.
A investigação da Polícia Civil do Distrito Federal foi ampliada e, conforme fontes ligadas à apuração, ao menos outros 20 óbitos estão sendo analisados por apresentarem padrões semelhantes aos casos já confirmados, como piora súbita do quadro clínico e paradas cardíacas inesperadas em pacientes internados em UTI.
Os investigadores apuram se essas mortes ocorreram no mesmo hospital ou em outras unidades de saúde onde o principal suspeito atuou anteriormente, inclusive instituições públicas. A Polícia Civil informou que o levantamento envolve análise de prontuários médicos, escalas de plantão e imagens de câmeras de segurança.
Até o momento, esses casos adicionais ainda não foram oficialmente confirmados como homicídio, mas seguem sob investigação.
Fontes: Polícia Civil do Distrito Federal, Coordenação de Homicídios e Proteção à Pessoa, Hospital Anchieta, Agência Brasil





















